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Vinte e sete anos de comprometimento com a Saúde: Dora Batista Araújo

Depois de quase cinco décadas de trabalho, sendo 27 anos dedicados à saúde pública de Presidente Prudente, a auxiliar de enfermagem Dora Batista Araújo se aposentou no último dia 5 de maio. O processo levou um ano para ser concluído, mas a espera não diminuiu a emoção do momento.


“Me sinto realizada. Era um sonho que eu tinha, de me aposentar e ter um momento exclusivo para mim. Acho a vida muito boa. É um presente que a gente tem que valorizar, depois de trabalhar todos esses anos e se dedicar tanto ao trabalho”, conta Dora, hoje com 62 anos.

Para entender o tamanho dessa dedicação, é preciso voltar ao início, a uma história que já antecipa o jeito intenso e acelerado com que Dora viveria boa parte da vida.

Nascida na zona leste de São Paulo, no bairro da Penha, Dora veio ao mundo dentro de uma viatura policial. O pai não conseguiu encontrar um táxi a tempo e acabou chamando a polícia, que levou a família correndo para o hospital. Ela nasceu antes de chegar lá. O pai pretendia registrá-la como Joana, mas a sugestão da escriturária do cartório foi outra, e assim nasceu o nome Dora.

Filha de um metalúrgico e de uma dona de casa que nunca aprendeu a ler, uma entre oito irmãos, seis mulheres e dois homens. A mãe lavava roupa para fora e fazia churrasco para o marido vender, e mesmo sem saber assinar o próprio nome, sempre cobrou dos filhos dedicação aos estudos. “Minha mãe, sem saber ler, inspirou os filhos a serem trabalhadores e estudar”, lembra.

Foi nesse ambiente de esforço diário que Dora aprendeu o valor do trabalho, ainda sem imaginar onde ele a levaria.

A vocação que nasceu dentro de casa

Antes da enfermagem, vieram outros ofícios. Dora passou por uma loja de aviamentos, onde começou como auxiliar de balcão, por um cargo de escriturária e por um concurso na Febem. A vocação só se revelou mais tarde, quando observou de perto a rotina da própria família. O sogro, diabético, desenvolveu insuficiência renal e precisou começar a fazer diálise, e a sogra passou a cuidar dele sozinha, sem preparo técnico. “Vi a dificuldade que eles tinham para dar o melhor atendimento para ele. Vi minha sogra se desdobrando de uma forma que dava dó. Foi isso que me inspirou a estudar a área da enfermagem, para poder servir da melhor maneira”, relembra.

A decisão exigiu sacrifício imediato. A formação aconteceu em Adamantina, com aulas aos sábados que exigiam acordar às quatro e meia da manhã. Foi numa dessas viagens, ao lado de colegas de curso, que surgiu a notícia do concurso da prefeitura de Presidente Prudente. Dora foi aprovada, convocada em 1999 e assumiu o cargo em 5 de abril daquele ano, dando início ao capítulo mais longo da sua trajetória profissional. “Não me arrependo. Gosto demais da saúde”, diz, sem hesitar.

Quase três décadas pela saúde de Prudente

Na rede municipal, Dora passou pela pediatria e pelos ambulatórios de oftalmologia, cardiologia, gastroenterologia e endocrinologia no antigo Palácio da Saúde, em frente à Santa Casa. Cobriu férias no banco de leite e atuou em plantões no Pronto Atendimento Ana Jacinta e em unidades da Cohab e do Guanabara, até ser direcionada ao setor de vacinas, onde permaneceu por vinte anos. “Sou metódica. A sala de vacina precisa ser muito limpa, não pode ter contaminação”, explica.

Nem todas as mudanças, porém, foram tranquilas de atravessar. A que mais marcou sua geração de servidores, segundo ela, foi a transferência do Palácio da Saúde para outros endereços. “Éramos uma família. Sofremos porque dividiram a gente. Tivemos que ser transferidos, e cada um foi para um canto”, recorda.

Ao lado das mudanças na rotina de trabalho, Dora também enfrentou desafios que extrapolaram os corredores da saúde pública e atravessaram sua vida pessoal.Os momentos que ficam
No trabalho, Dora destaca o período da pandemia de Covid-19, quando levava vacinas até as casas das pessoas. “As pessoas em desespero para receber a vacina. Quando eu chegava em uma casa com a vacina, elas agradeciam. Os idosos principalmente agradeciam muito. Foi um momento forte”, conta.
São histórias como essas que Dora carrega para fora dos plantões, e que moldam o conselho que deixa para quem está começando agora.

Conselho às novas gerações

Para as próximas gerações de trabalhadores da saúde, o recado de Dora é direto. “A gente tem que se entregar. O que compensa mais é saber que você teve uma trajetória em que prezou muito por aquele que estava do seu lado e pelo seu próximo”, aconselha.

A nova fase

Agora, fora da rotina dos plantões, Dora planeja terminar a faculdade de eventos, viajar e voltar a praticar esportes. “Urgente”, garante, com o mesmo bom humor que carregou pelos corredores da saúde pública de Presidente Prudente por quase trinta anos.

Histórias como a de Dora lembram que, atrás de cada posto de saúde, cada escola, cada unidade da assistência social, de cada vacina aplicada e de cada plantão cumprido, existe uma pessoa real. Alguém com nome, com família, com perdas e conquistas, com sonhos que seguem vivos depois do expediente. É disso que o serviço público é feito, de pessoas que merecem respeito, reconhecimento e valorização.

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